| ENTREVISTA
Álvaro
Macieira tem-se revelado, senão um dos artistas mais ecléticos,
pelo menos, um dos artistas mais surpreendentes.
O
jornalista cultural que durante anos a fio manteve viva a página
semanal de cultura do Jornal de Angola, o pesquisador literário,
motivador e incentivador para o surgimento de novos talentos nas
artes angolanas, o divulgador de uma crítica séria,
e o mais rigorosa possível, ‘desencantou-se’
ele próprio para a pintura, como já o havia feito
para a literatura.
Mas
aí o espanto não foi tanto, porque de qualquer modo
a escrita era a sua ferramenta de trabalho quotidiano. Uma passagem
pelo gabinete de Marcolino Moço, enquanto Primeiro-Ministro,
apresentou-nos um Álvaro Macieira investido de “ares
políticos”. Foi mais uma surpresa... relativa. Depois
da governação, a hibernação.
Um
belo dia, no regresso de um pequeno-almoço no Hotel Tivoli
com o então recém laureado Nobel José Saramago,
em direcção à Livraria Técnica, encontro
o Sabi, que me desperta para a surpresa que se fará anunciar
em breve: “tens de ir ver o Álvaro, porque ele já
está pronto para enfrentar a crítica”, disse-me.
Na ocasião, o Sabi trazia uma tela para oferecer ao Saramago.
Enquanto decorria o encontro com o Nobel, o pensamento persistia.
O Álvaro finalmente desencantou.
AngolaDigital:
Como é que se expressou em ti esse desejo de pintar?
Macieira:
Esse é de facto um caminho que eu queria trilhar desde
cedo. Na escola primária eu já pintava quatro aguarelas
simultaneamente com o mesmo pincel. Tinha essa mania de pintar.
Mas não pude estudar belas artes, era extremamente difícil
fazê-lo em Angola na década de 60, sobretudo para
um indivíduo que nasceu no Norte, no sertão angolano,
em Sanza Mpombo, e também não havia grandes condições.
Por exemplo, o Eleutério Sanches teve que sair do país
para estudar e o Viteix também. São todos mais velhos
do que eu. Mas era um sonho que fui alimentando. E, depois dessa
trajectória toda de jornalista, aos 40 anos comecei a pintar.
AngolaDigital:
É um caso raro, desencantar nessa idade...
Macieira:
Há uma frase do Cezanne que me norteia sempre: “a
arte nutre-se da arte para produzir arte”. E eu, ao longo
destes anos, o que fiz foi pesquisar, observar, visitar museus,
etc. Depois quando comecei a pintar, em finais de 98, foi um revisitar
desses lugares e isso foi de facto a minha grande fonte de inspiração.
AngolaDigital:
Já estava na incubadora, portanto...
Macieira:
Eu pensava: quando for velhinho, os filhos estarão certamente
longe e eu, inspirado pelo chilrear dos pássaros e pela
ociosidade da idade, vou pintar. Tinha pensado nisso, mas de repente
antecipei, porque acho que aos 40 anos pode começar-se
algo de novo e essa atitude servir de exemplo para muita gente.
AngolaDigital:
Até para um país que passou o que passou é
um caso raro. Seguindo a estatística é altura de
pensar na morte?
Macieira:É
um caso raro. Acredito que para um indivíduo que já
fez outras coisas e aos 40 começa a pintar, é como
nascer de novo, renascer, começar de novo. Essa atitude
enche o indivíduo de juventude e de vitalidade.
AngolaDigital::
Tu partiste de que referências?
Macieira:
Sobretudo do Victor Teixeira ‘Viteix’...
AngolaDigital:
Também um grande amigo nosso...
Macieira:
Aliás, foi ele quem me ensinou a andar no Metro de Paris
e eu acompanhei sempre a sua vida artística. Curiosamente
nunca o vi pintar, porque sempre que chegava ao seu atelier, parava
tudo e ficávamos na conversa. Ás vezes penso no
porquê de não ter prestado mais atenção
a isso, obviamente, observava os seus quadros, as suas exposições.
Hoje sinto falta disso.
Gostaria de ter observado os grandes mestres a pintar. Mas participo
de muitos “workshops” onde mostro a minha técnica,
mostro como cheguei a este ponto, ao mesmo tempo que outros pintores,
e partilhamos conhecimento. No fundo, o que consegui fazer tem
muito de intuitivo. Tenho sempre a sensação do menino
que brinca na areia, de que estou a fazer desenhos na areia.
AngolaDigital::
É um processo de alegria?
Macieira::
Exactamente. É um processo onde impera muita alegria. A
pessoa carrega essa alegria dentro de si e é uma fonte
de inspiração. Acordo todos os dias inspirado.
AngolaDigital:
É possível dizer, do ponto de vista técnico,
apesar da pintura tão diversa do Vando Zan Andrade, do
Viteix, do Gumbe, que temos uma escola angolana de pintura?
Macieira:
Ao observarmos a pintura de cada um desses grandes mestres que
citaste, podemos perceber que cada um tem um estilo próprio,
mas há uma coisa que é comum. Basta olhar para qualquer
dessas pinturas, para percebermos que é a pintura de um
africano, é claramente um discurso africano.
Depois vamos encontrar o traço peculiar. Eu fiz esse teste
com crianças que brincaram comigo durante meses e, quando
escondia a assinatura e perguntava de quem era o quadro, eles
já sabiam responder. Não sei se isso depois chega
a ser uma escola, mas o tempo é fundamental, o tempo é
que vai dizer se nós acrescentamos algo à nossa
cultura. Se o que fazemos é de facto digno de ser tomado
como referência.
AngolaDigital:
Na pintura, a ideia da consistência só vem com a
longevidade.
Macieira:
Exactamente. Normalmente levamos muito tempo para perceber que
um artista estava no caminho certo, que era revolucionário
na sua época. Ainda hoje continuamos a encontrar exemplos
desses na História da Arte.
No Brasil, Tarcília do Amaral, em determinado momento,
veio de Paris com todas aquelas ideias que se cultivavam por lá
e o seu quadro “a negra”, foi um estilo incompreendido
na época. Hoje é uma referência de avanço
no tempo, a mãe do modernismo brasileiro.
AngolaDigital:A
Pintura africana continua na moda...
Macieira:
Sim África continua na moda, porque é uma grande
fonte de inspiração. Ninguém, nenhum europeu
vem a África. E isso é um pensamento que gravita,
por exemplo, na Alemanha, onde se pensa que África continua
a influenciar o mundo das artes.
Jamais teríamos cubismo sem as máscaras africanas,
há fotos do atelier de Picasso que ilustram isso. Não
só de Picasso, mas de uma infinidade de artistas que beberam
de África. Aliás, África esteve sempre muito
avançada na sua pintura e na sua escultura.
Se repararmos, por exemplo, no “Les Demoiselles D’Avignon”
de Picasso, o pintor pára num momento, depois de ter observado
muito Paul Cezanne. Com Braque, não teríamos cubismo
sem as máscaras e toda a estatuária africana.
Sendo assim, ninguém visita África hoje sem levar
uma escultura, um símbolo do pensamento permanente de África.
AngolaDigital:
Como é essa relação com a Alemanha?
Macieira:
Um engenheiro mecânico chamado Horst Popp que trabalhou
aqui na década de 80, um pintor com mais de 40 anos de
actividade, também fascinado pelas máscaras, gostou
do meu trabalho. Apresentou o meu trabalho aos críticos
na Alemanha, ao professor Just Funke, que achou que o meu trabalho
tinha dignidade e convidaram-me para ir lá. Já estive
duas vezes a pintar na Alemanha e estarei lá agora nas
comemorações dos 30 anos de independência.
AngolaDigital:
A participar em “workshops”?
Macieira:
E também pintando no atelier dele, onde às vezes
ensaiamos técnicas a duas mãos.
AngolaDigital:
Fazes isso com artistas de outros lugares?
Macieira:
Esteve aqui o moçambicano Naguib. Passámos um dia
inteiro a pintar e nasceram algumas ideias, mas pensamos sobretudo
que esta ideia da connecção é um símbolo
de unidade, numa altura em que o mundo caminha para o individualismo.
Há um grupo já interessado nisso, até porque
em termos filosóficos achamos que a Arte pode contribuir
para resolver alguns dos problemas da humanidade, pode ajudar
na luta contra a pobreza. Há pouco tempo, em Bona, participei
numa exposição Arte & Charity e doámos
alguns quadros que foram vendidos para ajudar organizações
que trabalham em África.
AngolaDigital:
Um grande exemplo para nós que temos de desenvolver uma
cultura de paz.
Macieira:
Aqui, em 2002, com o Popp e o Augusto Ferreira fizemos uma exposição
no Mussulo e vendemos alguns quadros que doámos ao centro
de Leprosos. Não quer dizer que o artista deve passar a
vida a fazer caridade, mas são gestos que devem acompanhar
o artista que deve ser sempre solidário com os sentimentos
do seu povo.
AngolaDigital
Aqui entramos também na relação institucional
no qual o Estado tem um papel decisivo...
Macieira:
O Estado pode ganhar muito com isso se tiver uma forma de exportar,
com dignidade, o artesanato. São fontes financeiras. Até
o selo se paga.
Se as pessoas forem acompanhadas de uma memória descritiva,
em que quem compra fica a saber a sua origem e a sua história,
passa a ser a imagem do país, a história do país
viaja. Hoje ninguém sai daqui sem levar uma estátua
do pensador. Não sei se é, ou não, o grande
símbolo da cultura nacional, mas, verdade seja dita, ninguém
sai de Angola sem levar um pensador, entre outras peças
também, mas sempre o pensador.
AngolaDigital
Temos ainda o problema dos espaços...
Macieira:É
uma vergonha não ter até hoje um Museu de arte contemporânea.
Eu tenho comparado muito o nosso país com Moçambique
e Moçambique tem um Museu de arte contemporânea e,
como sabes, a maior parte dos quadros e das esculturas lá
expostas são doações de artistas. Ou seja,
o artista está interessado em perpetuar a sua memória
e acredita que um quadro com uma certa dignidade deve estar num
museu, e isso nós não temos.Temos de pensar nisso
e com urgência.
AngolaDigital:
Mas
isso está ligado ainda com a visão que se tem do
artista?
Macieira:
Não. Pode não ter sido prioridade. Como não
era a formação dos jornalistas em Angola. Tínhamos
os cursos básicos. Eu fiz um curso médio e mais
nada. Os cursos superiores surgiram agora. Nas artes plásticas,
só há um curso médio em Luanda e precisa
de instalações condignas. Quer dizer que a dimensão
cultural do desenvolvimento tem de prever isso.
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