Tona, a arte prolonga a vida...
Tona:
Sem dúvida. A arte é justamente o dia-a-dia do
povo angolano. É o resultado de tudo isso que nos aconteceu
entre o político, o social e o económico.
AD:Como
é que um dos mais expressivos e prolixos dos artistas
plásticos angolanos vê a vida dos angolanos? Com
que olhar?
Tona: É
por isso que o artista, quando se demarca para a arte, passa
a ser o olho clínico da sociedade, avaliando o positivo
e o negativo. A nossa sociedade hoje é o resultado sobretudo
de alguns males que nos aconteceram. É o resultado das
acusações externas e, aqui sim, é onde
entra o papel do artista, no sentido de transformar e criar
registos que sejam fontes de informação para gerações
vindouras.
AD:
O Tona está referenciado pela crítica internacional
como um dos artistas africanos mais progressivos e mais interessantes.
Ao que é que corresponde exactamente isso? É possível
senti-lo aqui em Angola?
Tona:
Aqui em Angola é um pouco difícil, por questões
de educação e cultura. Somos ainda um país
novo com essa nossa geração como uma geração
de passagem, ainda marcada pela guerra.
É por isso que nas minhas deslocações procuro
ao máximo observar e aprender o que é a arte,
hoje uma ciência profundamente estudada em Universidades
e que produz uma mensagem que devemos levar às futuras
gerações.
Daí a importância da crítica. E no plano
internacional ela é produzida com ciência, vai
até aos pormenores para poder separar o original do copiado.
Desde o Século XIII que os nossos antepassados produzem
a chamada simbologia africana, as mascaras, etc, tidas como
obras preponderantes na arte africana hoje, então eu
salto aqui etapas e numa forma de investigação
atenta vou construindo a minha arte. Passei 4 anos na tropa
pintando retratos de camaradas, chefes militares como Hoji Ya
Henda, do próprio Presidente José Eduardo dos
Santos e passei desse exercício meramente técnico
para um conceito mais avançado e, enquanto aqui se dizia
que eu estava a fazer artesanato, a crítica internacional
reconhecia algo naif.
AD:
O Tona chega a criar algo novo...
Tona:
Hoje não se pode mais inventar o cubismo e o expressionismo.
Não fui eu quem inventou o termo “etonismo”,
apenas tentei fazer algo diferente, quebrar o normal no plano
académico.
É por isso que a crítica tem aconselhado os governos
africanos a apoiar a obra do Tona, porque surgiu mostrando uma
nova época. São os críticos que se referem
a isso. Agora aqui em Angola muitos dos nossos colegas não
aceitam bem isso e dizem que os críticos não entendem
nada de arte africana, mas você vive lá fora sabe
bem que a marca africana atinge grande expressão hoje
no mundo das artes. Tem pouca expressão, até mesmo
em África, mas no resto do mundo está em alta
e não se pode banalizar a crítica de grandes investigadores.
Temos que respeitar para não passarmos por ignorantes.
Até porque muitos deles viveram e vivem em África
e não produzem avaliações gratuitas. O
“etonismo” surge desse processo, em que o investigador
Patrice Katchicama defende que Angola deve aproveitar ao máximo
a criação de uma corrente artística de
nível mundial.
AD:
Não é fácil sustentar um conceito desses
com tanta contradição interna...
Tona:
Mas estamos a lutar. A lutar de forma singular, mas tentando
sensibilizar os nossos governantes para a colocação
do nome de Angola ‘lá em cima’.
AD:
Quer dizer que desde o surgimento do cubismo de Picasso, que
se relaciona directamente com a arte africana, que não
surgia um movimento tão interessante para a crítica
internacional em que os artistas são vistos como contribuintes
para o desenvolvimento do continente?
Tona:
Penso que sim. Desde a revolução industrial que
os artistas participam desses processos na Europa. É
esse chamamento que eles fazem aos nossos dirigentes no sentido
de apoiar os artistas que são os criadores. Em termos
africanos estão referenciados 24 e nesses 24 está
lá o nome de Angola, representada pelo Tona. É
um alerta para apoiar um renascimento. Porque isso já
é uma marcação da história.
AD:
O Tona está preparado em termos artísticos e culturais
para responder a esse desafio?
Tona:
Acho que sim, só o facto de lá ter chegado fala
por si. É algo que está em mim. Por exemplo, eu
tenho um atelier de pintura e escultura em Portugal que esteve
de certa forma abandonado enquanto desempenhava o meu mandato
de Secretário da União dos Artistas Plásticos
Angolanos (UNAP), mas estou a reenquadrar-me.
Fui chamado agora em Nairobi para participar de um painel onde
se vai discutir a mutilação genital feminina,
a poligamia e a democracia em África; só para
o Carlos ver até onde vai a responsabilidade do artista
Tona. Isso é então seguramente um reconhecimento
do artista. Mas acho que o artista não deve estar ‘solteiro’
quando leva a bandeira nacional para o exterior.
AD:
O Tona dirigiu até há pouco tempo a União
dos Artistas Plásticos. O que é que falta para
que se articulem os interesses do país com a missão
dos artistas?
Tona:
Isto é um problema que já vem de longe. Posso
dizer que por razões de sobrevivência. Hoje, o
Estado angolano elegeu outras prioridades e os bancos de dados
ainda estão trocados. Uma das formas que o “etonismo”
contesta tem a ver com um certo tribalismo e regionalismo que
às vezes são postos na arte; isso é uma
forma negativa de estar na vida.
Eu sou do Mpla e o que me levou para lá foi uma ideologia
positiva. Se fosse negativa não teria ido, mas nem sempre
o homem é puro para dirigir e aplicar certas ideologias.
AD:
Mas há hoje um perfil definido do artista plástico
angolano?
Tona:
O artista está inserido na sociedade e também
é um ser humano. Em termos de defesa do conceito artístico,
não pode vender uma obra e depois gastar todo o dinheiro
bebendo cerveja, senão é um comerciante.
Hoje confundimos muito um técnico de pintura com um artista.
Às vezes nem sequer é pelo facto de frequentarmos
a escola superior de Artes que saímos de lá artistas.
Entre nós basta um curso médio para ser rotulado
de artista plástico e isso é destruir o país,
porque não é fácil encontrar um artista
reconhecido como tal. Falo em termos de conceito elevado, porque
na base somos todos artistas.
AD:
O Tona é um artista urbano?
Tona:
Não, eu acho que faço uma ponte. Recebo gente
que vem de muito longe para falar comigo e falamos até
dos problemas familiares e, no fim, há o espanto de ter
falado com o Tona, porque a ideia é que só me
encontro com os presidentes dos Bancos e Ministros.
AD:
Nesta Conferência de Nairobi no fim do ano, onde vai falar
de vários problemas do continente, o que destacará,
por exemplo, de positivo em relação ao nosso país?
Tona:
Sem dúvida o fim da guerra e o empenhamento do próprio
Presidente para isso. Acho que merece a sua glória, porque
a guerra estava a tornar-se num negócio perigoso. Isso
é, a todos os níveis, uma vitória.
AD:
Uma última questão. Noto poucas mulheres a trabalhar
nesta sua área...
Tona:
Porque não é fácil. Nós, os homens,
para fazer Arte é já uma grande aventura, porque
quem consome a nossa obra? Eu produzo uma semana, um mês
inteiro, no fim o trabalho pode ficar por ali, porque não
tem um consumidor. Às vezes até estranhamos quando
vem alguém da diáspora e vende vinte quadros.
Quem compra?
O nosso mercado é um mercado de ficção.
Questiono-me em relação aos nossos intelectuais,
quem são eles? É uma lacuna e, quando algum se
destaca, procura logo isolar-se e até sair do país.
É um mal até geral para África cujas revoluções
estagnaram nos anos 70.
Daí a necessidade de se construírem novas revoluções
onde somos chamados a alterar a ordem das coisas.
Eu agradeço uma conversa que tive um dia com o mais velho
Mendes de Carvalho quando ele me disse: “Tona, eu reconheço
a tua luta, mas só tu não bastas. Nós libertámos
o país, trouxemos a independência, mas vocês
estão acoitados. Ninguém quer lutar para nos tirar
os lugares, estão acomodados com o que se conquistou”.
Saí do seu gabinete sensibilizado. É um Mestre
aquele homem