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ENTREVISTA

TRANSPORTO AINDA A VISÃO DO SOL E DA FORMA DE VESTIR

Rui Manuel Vicente ou Manuel Vicente, é um jovem artista plástico a viver em Portugal, não que isso seja relevante para se ser artista, mas porque ele cumpre um percurso, infelizmente comum há muitos jovens angolanos, forçados por uma razão ou outra, a viver longe do seu espaço natural, com influência directa no resultado final da sua obra artística. Discípulo de Caterça Valentim, este “imigrado” ainda não pinta a tempo inteiro como gostaria mas não perde a oportunidade de desenvolver a sua técnica e ganhar experiência, ele que se socorre da memória de infância para “sobreviver” espiritualmente e transformar em arte uma certa saudade.

Arte & Cultura: Quando é que começou a pintar?

Rui Manuel Vicente: Comecei a pintar há sensivelmente 20 anos. Desde a minha adolescência que queria exprimir a minha arte mas, na altura não tinha ainda conhecimentos suficientes, depois fiz um curso de Belas Artes e passeia a exprimir-me com mais rigor técnico, digamos nos últimos 10 anos.

A&C: Mas, como é que uma pessoa define o momento de ser artista?

RMV: não há escola que nos diga isso, tem de estar dentro de nós. No meu caso eu sempre gostei de desenhar e tinha um tio até que dizia que eu seria pintor, embora eu próprio na altura não acreditasse muito nisso.

A&C: Tem gente na família que pintasse…

RMV: Sim tenho, um primo-irmão que pintava e que por ser militar não podia desenvolver mais a sua arte, ele foi a minha primeira grande influência, era quem falava comigo e me estimulava o gosto pela pintura, passei a estar mais tempo com ele, como ele era tropa, quando nos separamos, eu pensava nele e começava a pintar, foi não só influência como também inspiração.

A&C: Depois vem a fase da formação na escola do Barracão?

RMV: Sim, depois fui para o Barracão, nessa altura já era membro da União dos Jovens Artistas Plásticos e, era um dos caminhos a seguir, foi útil a formação e a partir daí, ganhei admiração pelo trabalho do Valentim a quem devo muito pelo ensinamento das formas e desenho que num curso prático de quase um ano frequentei e que até hoje ainda é uma fonte de conhecimento. Agradeço muito e se ele ver essa entrevista, ele sabe que é verdadeira essa admiração.

A&C: Depois então…Portugal…

RMV: Exactamente. Foi assim vinha para uma bolsa que me foi atribuída pelo pintor português Abílio Belo Marques só que por alguns problemas da minha vida pessoal, eu não pude frequentar o curso. É uma coisa que até hoje não sei explicar muito bem, mas as coisas aconteceram muito rapidamente e o curso perdeu-se.

A&C: Estamos a falar de que ano?

RMV: Estamos a falar de 1995/96 mais ou menos, só que era obrigado a olhar em frente, porque a vida continua e, eu segui o meu caminho.

A&C: Como é que se desenrascou para viver?

RMV: Trabalhando para além da pintura, porque nós não podemos esperar que caia do céu. Mas nunca abandonei a pintura, pintava a noite, de madrugada, de manhã, nunca abando nei a pintura, para mim é como comer.

A&C: Conseguiu entrar no circuito da pintura em Portugal, dá para vender quadros?

RMV: Sim dá para vender sempre qualquer coisa, nem que seja para comprar mais material. É como uma criança, investimos nela, criamo-la e esperamos que um dia dê tributos. Para mim uma obra de arte é como um filho.

A&C: Quais os principais motivos da sua arte?

RMV: Eu pinto tudo aquilo que vivi. Há pessoas que acham que as figuras que pinto são demasiado gordas para a fome que se passa em Angola. É uma visão critica. O que eu digo é que eu posso pintar uma pomba como símbolo da paz, o que não significa que a pomba venha doente. Eu pinto as coisas que vivi, sofrimento, as coisas boas, as roupas, os costumes, a harmonia das pessoas, as panelas de barro, a maternidade, etc.

A&C: O Rui é na sua arte resultado da cultura urbana de Luanda ou ainda conserva memórias do interior de Angola?

RMV: Eu nasci em Luanda mas depois fui viver até aos 8 anos no Uíge e apesar de ser fruto dessa cultura urbana de Luanda, a minha pintura está carregada da memória dos tempos em que passei no Uíge. Transporto até hoje a visão do Sol, da agricultura, da forma de vestir.

A&C: Por exemplo Portugal tem influência na sua pintura?

RMV: Não ainda não entra na minha pintura, não me influenciou o suficiente, talvez alguma tonalidade por causa do clima, um pouco de azul mas, não é significativo.

A&C: Curiosamente depois de ter sido seu professor em Luanda, reencontrou o Valentim aqui em Portugal já que ele viveu cá.

RMV: Sim e foi muito bom, porque ele fez logo uma avaliação da minha pintura e disse-me como melhorar, que já estava num plano ascendente, partilhamos exposições, tornamo-nos grandes amigos, é uma pessoa com quem podia passar dias em silêncio e mesmo assim aprendia coisas. Não tenho nenhum problema em dizer que ele enriqueceu-me, mesmo como homem mostrou-me vários caminhos, devo-lhe muito.

A&C: Tem estado em contacto com outros pintores angolanos e estrangeiros, pois vivem cá muitos

RMV: Sim tenho tido, embora o meu circulo seja o contacto directo com o Victor Teixeira, filho do Viteix e com o Tona, estamos sempre em contacto há pouco tempo havia a possibilidade de expor no Japão na Exposição Mundial, só que um contra-tempo não me permitiu ir, mas estou em contacto, vou ver as exposições, etc.

A&C: Sobre a pintura em Angola sabe alguma coisa destes últimos anos?

RMV: A informação circula pouco mas, vi no Japão as obras do Gonga que eu conheci há 12 anos, já não é o mesmo, ele evoluiu bastante sem fugir a sua escola, as telas dele estão com muita força nas cores. Vi obras do Van, do Lino que veio da escultura e que pinta agora em óleo, é uma boa evolução, é sinal que os talentos estão lá e que depende muito da pessoa que é o artista.

POR: CARLOS GONÇALVES
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